é doce o suco
que escorre entre as minhas pernas
quando sua mão percorre
caminhos que conheço bem

o amargo do café
na manhã seguinte
me prepara pra lembrança
desesperançosa
dos dias que virão

cada papila gustativa
que eu nem sabia que tinha
saliva no encontro
dos nossos membros perdidos
mesmo nao existindo para isso

meu paladar
ja desgastado pelo cigarro
insiste na memória
e não esquece que
meu corpo inteiro se tempera
quando está com você

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pequeno relatório de hospedagem

soberana de mim, a morte dorme no quarto mais confortável da casa. oito horas de sono e três litros de água diários garantem uma boa pele e disposição para exercer o seu trabalho. levanta às 6h, come bem e toma sol antes das 10h, não lhe falta nutrientes ou ânimo. durante o expediente, supervisionar relações e administrar sentimentos com maestria rendeu-lhe o título de funcionária do mês. a foto está pendurada no escritório há quase dois semestres, quando foi premiada pela primeira vez. hábitos saudáveis e a falta de contato com outros seres humanos resultam em uma boa expectativa de vida. a dela. outras informações poderão ser encontradas na ata da reunião de março (anexo 1).

out, 2017.

Todas as coisas que eu sinto são erradas. Você, às quatro da manhã, tocando a campanhia da minha memória e eu abrindo todas as portas da minha casa é errado. A areia entranhada em suas botas caindo na minha sala também é errado. A bala quente da felicidade me atravessa e eu não permito que isso seja bom, cada dobra do meu sorriso carrega o peso da possibilidade de sofrer. Não consigo entender o que sinto e o que digo não faz sentido, mas sei que é errado. Acertar é chão seco por onde já passou um rio e eu tenho sede.

A maneira que as coisas são arrastadas confirma a existência de um buraco negro em meu peito.
Nada sobra.
As coisas ruins entram e as boas não tem tempo nem de ser. Elas são puxadas lenta e frequentemente pra dentro de algo que eu não ouso chegar perto.
Se de alguma maneira os astros se alinharam e todos os corpos celestes se posicionaram para dar lugar a esse grande sugador de sentimentos que eu nem queria, que seja.
Eu sento e vejo tudo sendo destruído, o que foi e que ainda seria. Sou observadora da catástrofe que acontece com uma frequência grande o suficiente pra ser considerada natural.
Observo e não entendo. Flutuo e não entendo. Sou mergulhadora com ofício de astronauta. Aceito.