Todas as coisas que eu sinto são erradas. Você, às quatro da manhã, tocando a campanhia da minha memória e eu abrindo todas as portas da minha casa é errado. A areia entranhada em suas botas caindo na minha sala também é errado. A bala quente da felicidade me atravessa e eu não permito que isso seja bom, cada dobra do meu sorriso carrega o peso da possibilidade de sofrer. Não consigo entender o que sinto e o que digo não faz sentido, mas sei que é errado. Acertar é chão seco por onde já passou um rio e eu tenho sede.

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A maneira que as coisas são arrastadas confirma a existência de um buraco negro em meu peito.
Nada sobra.
As coisas ruins entram e as boas não tem tempo nem de ser. Elas são puxadas lenta e frequentemente pra dentro de algo que eu não ouso chegar perto.
Se de alguma maneira os astros se alinharam e todos os corpos celestes se posicionaram para dar lugar a esse grande sugador de sentimentos que eu nem queria, que seja.
Eu sento e vejo tudo sendo destruído, o que foi e que ainda seria. Sou observadora da catástrofe que acontece com uma frequência grande o suficiente pra ser considerada natural.
Observo e não entendo. Flutuo e não entendo. Sou mergulhadora com ofício de astronauta. Aceito.
17:43
e eu ainda estou à deriva
 
segundo as minhas contas
foram 32h contadas
em vai e vem de ondas
que agora uso como relógio
e aquele pedaço de terra
cada vez mais perto
 
eu ainda estou à deriva
e posso contar também
cada gaivota que passa
e anuncia aquele pedaço de terra
cada vez mais longe
 
faz muito tempo que enlouqueci
mas essa hora eu lembro
do lado de cá parece lógico
contar cada volta do seu cabelo
como ondas
que eu mergulho
com medo
porque eu não sei nadar